O sonho da Razão

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Estava tomando banho.
Era sempre assim: era durante o banho que as coisas aconteciam.
Mas naquele dia as coisas saíram do controle.
Havia passado o dia inteiro filosofando sobre energia atômica, mundos paralelos e pensamentos (ou impulsos eletromagnéticos, como gostava de chamá-los). Estava lá, tomando meu banho. De repente, sinto algo em minha barriga, em meu abdome, em meu corpo. Algo quer fugir de dentro de mim. Soube na hora, meus monstros estavam a se rebelar. Me veio à mente a frase do quadro de Goya, “O sonho da razão produz monstros”.
Minhas costelas estavam sendo forçadas para fora. Meus intestinos giravam. Não conseguia mais respirar, e fui ao chão, curvada, como se quisesse vomitar minha doença. Ainda estava intelectualmente sã o bastante para perceber tudo em volta. Consegui especular e filosofar durante toda a situação.
A água fria do chuveiro, que sempre me trouxe resquícios de paz e serenidade, ainda que me causasse tremores e tonturas, tornou-se quente, como por obra dos demônios, que disputavam o espaço no pequeno banheiro. Tinham fascínio por ver a água quase fervente queimar minha pele.
Seres bizarros começaram a sair pelo meu umbigo. A essa altura, já estava virada com a barriga para cima, me afogando com a água infernal. Minhas costelas estavam quase arrebentando. Então, meu esterno abriu. Como uma arca ou um baú mágico, que se abre lentamente, ao serem pronunciadas as palavras do encantamento.
Mas a cena não era nada assim. É verdade, minhas costelas protegiam minha alma, meu tesouro, mas era também uma caixa de pandora, que carregava tudo aquilo. E não se abriu lentamente. Quebrou em dois, como se tivessem martelado meu peito. E não havia palavras arcaicas e arcanas, apenas o riso de todos os sádicos demônios.
A velocidade com que escaparam meus tormentos acabou por explodir minha barriga, o que atraiu os animais dos diabos a devorar minhas vísceras. Minha alma enfim pôde escapar. Mas qual a vantagem nisso? Todo meu físico estava ali, e boa parte das minhas pessoas havia fugido com meus loucos. Só sobrou este fantasma, uma sombra do que um dia eu fui. Este fantasma que vos escreve, traído pela própria mente, e que só não é assassinado pelos demônios pois serve como piada àqueles malditos.
Vago por aí, sem poder interagir com o material, com o físico. Não posso fazer-te mal, leitor, e talvez isso tenha sido um dos motivos cruciais para não ter enlouquecido em minha ira desenfreada novamente. Vago, e interajo só com o metafísico, com os tais ‘impulsos eletromagnéticos’. Vago por aí, liberando inspiração para quem me percebe. Esperando que um dia alguém me decifre.

Conto muito bom by AmagusDaemonis :D

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